São 4h da manhã, e eu sou o outro que te acorda
São 4h07. A casa está escura e você dorme de boca aberta, com uma perna para fora do edredom. Eu subo no seu peito, sento bem em cima do esterno e encosto o focinho no seu nariz. Como você não reage, derrubo o celular da mesinha de cabeceira. Na terceira tentativa você abre um olho, e eu já estou olhando para você como quem cobra uma dívida antiga.
Você levanta resmungando e, quando volta para a cama, o sono já foi embora. Sobra o teto, o silêncio e uma cabeça que resolve revisar a vida inteira. Hoje eu quero falar dessa hora: da angústia de quem acorda sem ter escolhido acordar, da solidão das 4h e desse outro que exige tudo sem dizer uma palavra.

O Diagnóstico Clínico
O que acontece comigo
Eu não peço. Eu apareço. Não tenho agenda, não mando mensagem antes e não pergunto se é um bom momento. Simplesmente sento em você e espero que você entenda o que eu quero.
E aqui vai uma confissão de gato: muitas vezes nem eu sei direito o que quero. Às vezes é comida, às vezes é só ver você acordar por minha causa. Para mim, ter alguém que se levanta quando eu chamo já é metade do banquete.

O conceito: o olhar, o rosto e a demanda
Em O Ser e o Nada (1943), Jean-Paul Sartre descreve o momento em que percebemos que somos olhados. O olhar do outro nos transforma em objeto, e de repente a gente se vê de fora, julgado. Quando você abre um olho e me encontra te encarando no escuro, sente esse peso. Ainda meio dormindo, você já virou alguém que deve alguma coisa.
O filósofo Emmanuel Levinas, em Totalidade e Infinito (1961), vai por outro caminho: o rosto do outro nos chama à responsabilidade antes de qualquer escolha. Levinas falava de pessoas, e eu uso a ideia aqui como metáfora. Mesmo assim ela explica por que é tão difícil ignorar alguém que precisa de nós.
A psicanálise acrescenta uma camada. Jacques Lacan, no Seminário 5: As formações do inconsciente (1957-1958) e no texto A significação do falo (1958), distingue demanda e desejo. Toda demanda dirigida a alguém é, no fundo, também um pedido de amor e de presença, e por isso nenhum objeto a satisfaz por completo. O meu miado das 4h pede comida, mas pede também que você exista para mim naquela hora. Daí a sensação de que, por mais que você dê, nunca é o suficiente.

O que acontece com você
Às 4h não há reunião, nem trânsito, nem gente para conversar. É a hora em que o mundo para de nos distrair. Sartre chamava de angústia a vertigem de perceber que somos livres e responsáveis pelo que fazemos da nossa vida, sem desculpa pronta. De madrugada essa vertigem aparece sem cerimônia: o emprego, a relação, a mãe que envelhece, a mensagem que você não respondeu.
E existe a solidão. A casa dorme, os amigos dormem, e você está acordado porque alguém precisou de você. Muita gente vive isso com outros nomes: o bebê que mama de hora em hora, o pai doente que chama no meio da noite, o celular que vibra com o problema de outra pessoa. Você atende o outro e, quando a casa se aquieta, fica sozinho com os próprios pensamentos.
O pediatra e psicanalista Donald Winnicott escreveu em 1958 o artigo A capacidade de estar só. Para ele, conseguir ficar só é sinal de maturidade emocional, e essa capacidade nasce da experiência de estar só na presença de alguém confiável. Quem não aprendeu a habitar o próprio silêncio sente a madrugada como abandono. Quem aprendeu pode transformá-la em um tempo seu.
A Intervenção
Para você, que acorda às 4h
- Separe o pedido da pessoa. Atender o outro é uma escolha. Antes de levantar, pergunte a si mesmo: isso é urgente, ou eu só não suporto a ideia de alguém ficar insatisfeito comigo?
- Escolha a sua atitude diante do que não dá para evitar. Viktor Frankl, psiquiatra que sobreviveu aos campos de concentração, escreveu em Em busca de sentido (1946) que a última das liberdades humanas é escolher a atitude diante de qualquer circunstância. Se você precisa levantar para cuidar de alguém, pode lembrar por quem e para que faz isso, e o cansaço ganha outro peso.
- Não brigue com o silêncio. Em vez de pegar o celular, fique alguns minutos com a respiração, o barulho da rua, a luz do abajur. Um caderno na cabeceira ajuda a tirar da cabeça o que insiste em voltar.
- Diga em voz alta, de dia, o que você não consegue oferecer à noite. Um limite combinado com antecedência pesa menos do que um “não” resmungado às 4h.

Para pais e educadores
- Mostre que o adulto também tem limite. A criança que ouve “eu preciso descansar para cuidar bem de você” aprende que amor e cansaço convivem.
- Ajude a criança a ficar só sem se sentir abandonada. Um abajur, um bicho de pelúcia ou uma música baixinha funcionam como a presença confiável de que Winnicott falava.
- Não deixe um filho virar o cuidador da casa. O adolescente que fica acordado pelo humor dos outros precisa ouvir que essa responsabilidade não é dele.
- Converse sobre a noite durante o dia. Medos noturnos ficam menores quando ganham palavras à luz do sol.
Para conversar
- “Tem alguém que te pede coisas numa hora em que você já está cansado? O que você sente quando diz sim?”
- “Como você avisa que precisa de um tempo sem parecer que deixou de gostar da pessoa?”
- “O que passa pela sua cabeça quando você acorda no meio da noite e não consegue dormir?”
- “Do que você gosta de fazer sozinho, sem ninguém te pedindo nada?”
Quando procurar ajuda
Acordar de madrugada de vez em quando faz parte da vida. Vale procurar um psicólogo quando a insônia se repete por semanas, quando os pensamentos da madrugada viram angústia que aperta o peito, quando a solidão pesa mesmo durante o dia ou quando cuidar dos outros te deixou sem nenhum espaço para si. Pedir ajuda também é um jeito de cuidar de quem você cuida. Se aparecerem pensamentos de desistir da vida, ligue para o CVV no 188, que atende 24 horas.
Conclusão Existencial
Hoje à noite eu vou subir no seu peito de novo, porque sou gato e não aprendo lições de moral. Você pode levantar ou não. Pode resmungar ou rir de mim. O que você não pode é fingir que não escolheu. Sartre diria que até ficar parado é uma escolha. Frankl completaria que, mesmo às 4h, ainda dá para escolher o sentido que esse acordar vai ter.
A madrugada fica menos solitária quando você aprende a ser boa companhia para si mesmo.

E aí: quem ou o que te acorda às 4h da manhã na sua vida? Conta nos comentários.
Referências
- Sartre, Jean-Paul. O Ser e o Nada: ensaio de ontologia fenomenológica, 1943 (teoria: o olhar e a angústia).
- Levinas, Emmanuel. Totalidade e Infinito, 1961 (teoria sobre o rosto humano, usada aqui como metáfora para o gato).
- Lacan, Jacques. O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente, 1957-1958; A significação do falo, 1958 (teoria: demanda e desejo).
- Winnicott, Donald W. The capacity to be alone. International Journal of Psycho-Analysis, 39, p. 416-420, 1958.
- Frankl, Viktor E. Em busca de sentido (original alemão de 1946).
- A cena do gato às 4h é ilustração narrativa e metáfora do outro que exige.



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